sexta-feira, outubro 21, 2005




Gosto

Do sorriso impertinente
Dos olhos ónix a piscar
Do busto tão irreverente
E desse cabelo particular

Das carnes bem consistentes
Do teu umbigo ideal
Das covinhas indecentes
No fim da espinha dorsal

Do teu ar assim atrevido
E também do ar inocente
Da tua boca que não mente
Quando lança o final gemido

Da parte de trás do pescoço
Que o cabelo quer esconder
Aí onde não há qualquer osso
É bom sítio para morder

Do teu riso de criança
Da voz rouca do cigarro
Do teu andar que balança
E das mãos que eu tanto agarro

Do corpo de animal nadador
Que nada em qualquer maré
Mas do que sou mais amador
É da cicatriz do teu pé

quinta-feira, outubro 20, 2005





Ela chorava lágrimas ternas no fim desta história. Quando ele contava a parte da sereia ela perguntava "como era? diz lá como era ela?":

Um pai e dois filhos eram pescadores numa pequena vila junto ao atlântico. Viviam sós numa cabana, em condições deficientes pois eram pobres e a mulher tinha morrido há uns anos.
Sempre que o mar e o vento lhes permitiam saíam no seu pequeno barco a pesca. Não se afastavam muito, quando pescavam à noite o seu barco não era mais do que uma pequena estrela entre muitas outras , as do mar, as dos outros barcos e as das constelações.
Quando a pesca nocturna não era satisfatória, pescavam até de madrugada, junto ao Cabo da Gata, onde a água era transparente e onde facilmente apanhavam alguns polvos.
O rapaz mais novo adorava esse pesqueiro. Algumas vezes, quando olhava para o fundo mar via com nitidez a imagem de uma sereia que retribuia o olhar. O rapaz, então, dizia para outros "Lá está ela, lá está ela..".
Incrédulos, pois nem o pai nem o seu irmão viam algo parecido com uma sereia, perguntavam-lhe : "onde está? como é ela?".
O rapaz respondia:
"Tem cara redonda, cabelo curto um pouco partucular e olhos ónix."

Mas a vida dos homens era difícil e o pai, nunca recomposto da perda da mulher, mergulhava no vinho todos os dias, sendo cada vez mais difícil trazê-lo à faina da pesca.
Os patrões, donos do barco, ficavam insatisfeitos com o fraco rendimento daquela tripulação.
Uma noite a tragédia aconteceu: O pai, depois de muitas horas na taberna, tomou o caminho que leva à falésia e atirou-se lá de cima.

A vida passou a ser ainda mais difícil para os dois irmaõs. No aniversário da morte do pai, após uma noite de lágrimas na taberna entre pescadores que lamentavam a má sorte daquela família, o irmão mais velho, repetiu a desgraça do pai, do mesmo sítio, quase à mesma hora, atirou-se da falésia.

A partir desse terrífico acontecimento a vida quase terminou para o irmão mais novo. Não mais foi à pesca, passava os dias sentado à porta da taberna, sem falar , à espera que alguém lhe pagasse um copo de vinho.
Quando mais um aniversário dos horríveis acontecimentos se aproximava , todo povo da vila comentava: "Desta vez vai ser ele" .

No dia de aniversário , lá estava ele, no meio dos outros pescadores, a beber, a lembrar, a chorar. O desespero crescia até fazer faltar o ar a todos os presentes e trazia ao rapaz uma angústia insuportável.

Nessa ocasião uma mulher entrou na taberna.Tinha cara redonda, cabelo curto um pouco partucular e olhos ónix. Colocou a mão no cabelo do rapaz, fez-lhe uma festa. Ele olhou-a, reconheceu-a, deu-lhe a mão e partiram os dois na direcção da praia.

quarta-feira, outubro 19, 2005



Teach me Tiger


Primeiro os acordes da guitarra
Depois o ritmo das congas
Agora entra a voz sensual
Sussurrando "take my lips"
Tal qual uma sereia
Com o corpo a ondular
Mas playback é fingimento
Ela é só conhece a verdade
E a vibração é mais forte
Se ela também cantar