quarta-feira, maio 10, 2006


É fácil cuidar do jardim

É fácil cuidar do jardim
Deixaram tudo preparado,
As árvores, os bolbos e as plantas vivazes.
Então é só seguir o calendário perpétuo
Aquele que se desenrola desde o princípio dos tempos,
segundo o ritmo das estações:
Plantar flores em Maio,
daquelas resistentes, das dunas ou das fragas
Arméria, saxifraga ou iberis
e também
arrancar as ervas daninhas,
como se arranca um mau pensamento.

É fácil o trabalho do jardineiro
Num jardim assim pequeno,

Que cresce e floresce cada dia

segunda-feira, maio 08, 2006


A estrada dos embondeiros

A verdade é que as verdades que tinha me desviaram do que é agora a verdade das coisas.
Os erros, os desvios, esses levaram-me a uma verdade, pelo menos relativa.
Assim, por vezes caminhamos pelo trilho dos embondeiros , árvores enormes, parece impossível enganarmo -nos no caminho. Mas os grandes embondeiros também já foram pequenos e conheceram outras verdades.
Outras vezes caminhamos na selva, cheia de espíritos misteriosos, acompanhados pelo bater ritmado dos djembés. Aí podemo-nos perder. E é bom.

Era um truque

Era um truque que resultava sempre: cravava as esporas o mais à frente possível, puxava as rédeas com força e o cavalo levantava as patas da frente, empinando-se com garbo. Claro que o animal não gostava, as esporas furavam a pele, os arreios massacravam a boca. Porém, os miúdos da aldeia regozijavam quando o viam de espada no ar, a capa negra ao vento, a máscara misteriosa, e ele , todo elegante em cima do imponente cavalo .

Além disso, quando era perseguido, os pobres soldados intimidavam-se, naturalmente.
O número era impressionante e, claro, ninguém gostaria de levar uma patada do animal.
Contudo, ultimamente as coisas pareciam correr mal: sentia-se cansado , pouco reconhecido mesmo pelos índios e colonos, os pobre diabos a quem dedicava o seu esforço, a sua luta pequena .

E pior de tudo, a sua luta grande , aquela pelo coração de Helena , corria ainda pior. Ela continuava igual a si própria, altiva, longinqua, fria, olhos no chão. Nada do que fizesse lhe despertaria um riso, um ai, uma lágrima .

Foi assim, com tristeza e raiva que nesse fim de tarde , após uma dessas loucas correrias fugindo aos guardas do governador, quando chegou à casa de Helena, em frente à janela do seu quarto, na praça poeirenta e pejada de crianças excitadas, resolveu fazer o número do cavalo empinado.

Porém , nessa tarde, o cavalo em vez de empinar-se garbosamente, deu um pinote feio , com as patas traseiras.
O cavaleiro tombou, pesadamente, felizmente não se magoou. Mal se levantou olhou para a janela e viu Helena espantada de boca e olhos bem abertos.

Não teve outro remédio senão fugir a pé , assustando os miúdos com sons guturais, ridículos. O cavalo, esse galopou durante horas sòzinho ao longo do oceano, pela areia da praia.