sexta-feira, maio 26, 2006


Os medos das meninas (1)

Era uma vez uma menina
Em tudo igual às outras meninas
Bonita, alegre de pele fina
Que brincava no jardim
Saboreando as longas horas dos dias de Sol


Brincava também com rapazes
Mas são queria intimidades
Pois eles eram desajeitados, incapazes

Quem a conhecesse de um modo superficial
Diria que era uma menina perfeitamente normal

Mas dentro dela havia algo que só ela sentia
que estava presente cada minuto de cada hora
e que há noite os seus sonhos invadia

Ela tinha medo do fogo
e de tudo a que a ele se referia:

Medo do fósforo, da fogueira, do isqueiro,
dos foguetes, dos fogachos, das chamas
Do forno, dos churrascos, do bombeiro
Pois só há bombeiro porque há flamas

De uma chispa no palheiro
De faíscas no São João,
Dos pinhais secos
Duma ponta de cigarro no chão
Das searas a ondular com o vento de Verão

Assim foi vivendo a menina
Recusando o Verão, ansiando o Inverno
Até que um dia, tranquila, entendeu
Que tinha perdido o medo das labaredas do inferno

quarta-feira, maio 24, 2006


Nas terras por onde andei

Nas terras por onde andei
Vi salgueiros inclinados sobre os lagos.
Quando choravam a água subia,
quando bebiam a água baixava.
Os salgueiros podem fazer tudo isso
Pois têm raízes profundas

Nas terras por onde andei
Inclinei-me para a água,
para o abismo e para as estrelas
com raízes bem agarradas à terra.

terça-feira, maio 23, 2006



É ver uma fotografia tua

É ver uma fotografia tua, menina
Em frente ao bolo de aniversário
e sentir um oceano de ternura
É lembrar de como dizes "San cugat"
e ouvir o eco do eco do eco
É, de manhã, ver a roupa amarrotada
e desejar ter mais nariz, mais faro
É passear os meus olhos pelo teu corpo
e ficar amarrado a um detalhe, hipnotizado

É inalar, comer e beber de uma só vez