
Os medos das meninas (1)
Era uma vez uma menina
Em tudo igual às outras meninas
Bonita, alegre de pele fina
Que brincava no jardim
Saboreando as longas horas dos dias de Sol
Brincava também com rapazes
Mas são queria intimidades
Pois eles eram desajeitados, incapazes
Quem a conhecesse de um modo superficial
Diria que era uma menina perfeitamente normal
Mas dentro dela havia algo que só ela sentia
que estava presente cada minuto de cada hora
e que há noite os seus sonhos invadia
Ela tinha medo do fogo
e de tudo a que a ele se referia:
Medo do fósforo, da fogueira, do isqueiro,
dos foguetes, dos fogachos, das chamas
Do forno, dos churrascos, do bombeiro
Pois só há bombeiro porque há flamas
De uma chispa no palheiro
De faíscas no São João,
Dos pinhais secos
Duma ponta de cigarro no chão
Das searas a ondular com o vento de Verão
Assim foi vivendo a menina
Recusando o Verão, ansiando o Inverno
Até que um dia, tranquila, entendeu
Que tinha perdido o medo das labaredas do inferno

