sábado, agosto 09, 2008


Sobre um soneto


Diz o soneto que em não mais que num instante o riso se faz pranto.
Eu, do alto deste coreto, num momento imóvel, vejo os condenados à vida, que gritam, silenciosos e brancos, a sua inocência: " Não sou culpado, não sou culpado de amar!!"
E aqui fico, estático, olhando a minha aventura errante.


Memórias do beijo


Primeiro,vem o bafo,
conhecido e acolhedor
como a casa
depois vêm os lábios,
ou seja a fímbria do mar,
logo a framboesa da saliva
Por fim tu mesmo
toda tu,
ou seja todo o mar

Namoro


Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas

.....


Viriato da cruz

O governo da poesia


No dia em que esse país for governado pela poesia

e as pessoas cobiçarem grandes tesouros imateriais

não haverá mais assaltos a bancos,

nem excessos de velocidade,

nem filas de, espera

nem esperas.

quinta-feira, agosto 07, 2008


A idade adulta



Já não interessam as notícias.
(Aliás o que é uma notícia?
algo que toda a gente vai saber daqui a dois minutos?
algo de que toda gente vai falar amanhã
algo que toda a gente vai esquecer depois de amanhã?)
Também já não interessam os que aparecem de olhos vivos e luzidíos e dizem "Sabias que..."
Não, não sabia que!
Menos interessam os que falam com as mãos
para melhor explicar a vacuidade do que não têm para dizer.
Interessa o ligeiro movimento das as sementes quando, debaixo do chão,
sentem a gota de água ali ao lado.
Interessa distinguir o som do vento nos choupos, nos carvalhos e nos pinheiros.
Interessa sentir que as coisas mudam

A Lua


Põe uma folha terna da Lua debaixo da tua almofada
e verás aquilo que queres ver.
Leva sempre um frasquinho do ar da Lua para quando te afogues
e não te esqueças de dar a chave da Lua aos presos e aos desencantados.
Para os condenados à morte e para os condenados à vida
não há melhor estimulante que a Lua
em doses precisas e controladas.

Jaime Sabines