quinta-feira, novembro 03, 2005


A outra história da rã e do escorpião

(Quando o homem do farol lhe contava esta história Ela só perguntava: Mas porque é que o escorpião é tão mau, diz...diz...)


O fogo devastava a floresta e todos os animais fugiam do inferno das chamas. Foram travados pelo leito de um enorme rio , o Iguassu.

Quase todos se atiraram à água, tristes por abandonarem os lugares onde tinham vivido toda a sua existência, mas contentes por saberem que o fogo não passaria para a outra margem do rio onde estariam em segurança. Bois, macacos, pumas e crocodilos lançaram-se à travessia , estimulados pelos gritos estridentes e nervosos dos papagaios que voavam baixo.
A rã era dos bichos mais despreocupados pois estava habituada à travessia do rio. Quando ia saltar para a água quando ouviu o escorpião que lhe falava:

"Ajuda-me, sabes que eu não sei nadar, leva-me nas tuas costas para o outro lado!"

A rã respondeu:
"- Mas tu és o bicho mais traiçoeiro, mais imprevisível da floresta, que garantias me dás que não me vais espetar o teu veneno mortífero durante a travessia?"

" Pensa dois minutos", pediu o escorpião, " Se eu te morder vamos os dois para o fundo, será a perdição de ambos".

A rã aceitou a explicação que lhe pareceu racional e iniciaram a travessia, ela nadando e o escorpião às suas costas .

Ao princípio o escorpião ia feliz, impressionado com o espectáculo das chamas a consumirem a selva, os bichos a atravessarem o imponente rio Iguassu, a floresta virgem, por desbravar do outro lado.

Mas, de repente, a sua cabeça encheu-se de pensamentos negativos.

" Afinal porque diziam que era ele o bicho mais taiçoeiro da floresta?"
"Seria dele a culpa de as suas dentadas, mesmo as mais fracas, injectarem o mortal veneno?"
"E o mal que os outros lhe faziam quotidianamente, isso não contava?"
" Era mentira que nunca algum bicho se tivesse interessado por ele: um dia a centopeia tentou inciar uma conversa mais íntima e foi ele, o escorpião que não deu qualquer seguimento"
"Essa rã, sempre tranquila e serena, pensaria ela que era especial, tal como a flor do "Petit Prince"?
"Como reagiria ela ao ver-se consumida pelo veneno?"

Raivoso, preparava-se para dar a dentada fatal , quando uma onda provocada por uma iguana que nadava perto quase o deitou ao rio. Com dificuldade a rã conseguiu equilibrá-lo sobre as suas costas.
Por fim, passado o susto, ouviu a rã dizer:

"Já pensaste que o fogo consumiu todos os traços e marcas da nossa vida, mas que deste lado temos outras lagoas, sequoias, ipês roxos que nos acolhem?"

O escorpião, surpreendido pensou uns instantes nessa ideia, imaginou como seria a terra quando ele fizesse o primeiro buraco. Quando voltou à realidade estavam na outra margem: a corrente do Iguassu tinha-os transportado sem qualquer esforço.

Sentiu que a areia que pisava deste lado do Iguassu era diferente, mais firme, mais segura.

quarta-feira, novembro 02, 2005

chevaux


Como um continente

Como um continente desconhecido

Uma floresta selvagem por desbravar

Essa tua mente jovem, exemplar

Dá ao teu corpo o melhor sentido

Não são boas teorias nem obras de arte

As descobertas que fazes cada noite

Estremeçem teu corpo como um açoite

São vibrações que dançam a chamar-te

Tal como Penélope teces uma tela

No tear das prendas mais estranhas

Onde é fácil virar e revirar entranhas

Desafiando a fantasia louca e bela

Saboreando prazeres desconhecidos

E apurando cada vez mais os sentidos

domingo, outubro 30, 2005





Entre o casario

Entre o casario cor de rosa
Respirando o ar azul
Sentados naquele café
Onde de manhã se folheiam jornais
Após a noite de sábado
Ou passeando no jardim
Onde os mendigos arrastam a alma
Ou subindo íngremes calçadas
Em elevadores que vão ao céu
Caminhando de mãos dadas
Naquele domingo de Novembro
Ias tu e ia eu

Se estivesses

Se estivesses aqui comigo,
Subindo e descendo colinas
E aparecesse aquele raio de luz
Vias os loucos, os poetas
Os que falam sozinhos na rua
As mulheres da vida, as crianças
Os jacarandás e as palmeiras
Os turistas e os mendigos

Seguias os trilhos dos eléctricos
Ouvias as gaivotas, as crianças
E o trinar de uma guitarra
Num qualquer beco apertado

Respiravas maresia,
Hortelã e café

Reparavas
Nos tons africanos

Sorrias
Com os velhos nos autocarros

Reagias
A um encontrão apressado

Sentias
O toque quente da minha mão