sexta-feira, fevereiro 17, 2006



O Amantes

Os amantes não desperdiçam beijos
Nada há mais íntimo do que um beijo
Não desperdiçam noites
Principalmente as que não são de dormir
Conhecem o relógio dos cheiros,
Os da manhã e os da tardinha
Decoraram a carta dos gostos
O doce, o salgado, o básico e o ácido
O tempo pára quando conversam
E quando o silêncio desce

é como o pôr do Sol no mar
no fim de tarde de Verão
antes do farol acender:

calmante e apaziguador

Além disso
são siameses dos gestos:
Voltam-se sincronizados

ao mesmo tempo,
para o mesmo lado

quarta-feira, fevereiro 15, 2006


O perfume

Para conseguir aquele aroma final
É necessário fazer a colheita pela manhã
Passeando pelo oceano-cama
Quando as ondas acalmam e o mar amaina.

As amostras tomam-se nas curvas e nos vales
Onde é mais elevada a humidade do ar.

Para acertar as proporções
É bom ter nariz treinado e apurado
E fazer o ar entrar plenamente nos pulmões

Framboesa, baunilha, jasmim,
Canela, angostura, alecrim
São alguns condimentos da mistura.

Este perfume assim fabricado
Com ingredientes na justa proporção
É o nectar do nosso olfacto

Estimula a cabeça e o coração


segunda-feira, fevereiro 13, 2006


O avião

Às vezes é preciso um sinal, um susto, uma visão
Para sentir o que dizemos muitas vezes sem sentir:
Que em qualquer momento a vida pode bascular
Que nada é adquirido
Que não devemos adiar
Que não devemos calcular

Que seria bom dares-me a mão nesse momento
E não estares ali só, tão só, tão só ...

Para poderes explicar o que pensavas
E não adiar aquilo que sentias.

Mas aqueles momentos em que o avião caía
Pareceram tão longos que tiveste todo o tempo
Para dizer o que até esse momento não dizias