sexta-feira, junho 10, 2011

Conto do Elefante

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.

excerto de Carlos Drummond de Andrade





terça-feira, junho 07, 2011

Conto da cabrinha que pulava


A cabra era bem pretinha, com os cascos brilhantes, jovenzinha e cheia de vida. O dono trata-a bem, ata-a no meio do pasto com uma corda longa. Porém a cabrita enfada-se daquilo tudo, por que tem como horizonte a montanha e deseja ir até lá.
Uma manhã, ela pede para o seu dono deixá-la ir a montanha por que assim deseja muito.
O dono fala do perigo de um lobo que ronda por ali.  Então, ele questiona a cabrita sobre o que lhe falta. Ela responde que nada, mas que tem o desejo de ir lá. E se vier o lobo o que fará? Ela diz que o enfrentará até a morte. Então, diante da resposta, ele decide trancá-la.
 Assim o faz, trancando à chave a porta, mas esquece-se da janela aberta e a cabrita foge. Chegando às montanhas, a pequena cabra realiza todos os seus sonhos, sente-se uma rainha, vive uma aventura, é feliz e tem sucesso. O tempo
assim passa rápido e já se faz noite quando ela se dá conta que não tem mais como retornar ao lar.
Contudo, a cabrita sente que o lobo está atrás de si, vira-se e vê-se frente a frente com ele. Ele é enorme, imóvel e a devora com os olhos, ciente que não precisa ter pressa, que ela vai ser sua presa. A cabrita compreende isso. Sente medo. No seu último rasgo de orgulho, a pequena cabra  resolve resistir. No cume da batalha, já com poucas forças, come a relva verde, gostosa e exuberante da montanha, seu prémio de liberdade.
 Então ao amanhecer, ela cai na relva, esgotada, cheia de sangue e é comida pelo lobo.




Dois amigos discutindo

Um dos amigos criticou a excessiva prudência do outro citando o celebre aforismo do Marquês de Maricà: "Há muitos homens que receiam ser desenganados pelo desgosto de parecerem crédulos ou tolos".







domingo, junho 05, 2011

Dois amigos discutindo  acaloradamente aforismos (via Hilton)


 É tão fácil sentir a felicidade como é difícil defini-la.
 O insignificante presume dar-se importância maldizendo de tudo e de todos.
O império mais poderoso e fatal que existe é o das circunstâncias.


(It's so easy to feel the happiness as it is difficult to define it.
 The meaningless assumes importance given to cursing everything and everyone.
The most powerful empire is the one of the fatal circumstances.)

Marquês de Maricà



 Autoretrato com aforismos (via Hilton)


Deve-se julgar da opinião e caráter dos povos pelo dos seus eleitos e prediletos.
A civilidade é uma impostura indispensável, quando os homens não têm as virtudes que ela afeta, mas os vícios que dissimula.
O sumário da vida humana são enganos e desenganos.




(You have to judge the beliefs and character of the people by their elected and favorites.
The civility is a necessary falsehood, when men do not have the virtues that it does, but have the flaws that it hides.
 The summary of human life are mistakes and disappointments)



Marquês de Maricà