É quandoÉ quando perguntas se comprendo que me pergunto se chegas a comprender quanto comprendo.
Os medos das meninas (3)Esse medo apareceu repentinamente, já na idade adulta. Foi no dia em que ela acreditou que se tinha tornado invisível.Estava numa festa, numa roda de amigos, todos eles com um copo na mão. Ela resolveu fazer uma observação apropriada, bem integrada na conversa e esperou a reação. Foi nenhuma.Não chegou a entender se a tinham ouvido e pura e simplesmente ignorado. Reparou apenas que ninguém a olhava, que nem um só olhar se cruzava com o seu.Nessa noite sentiu, pela primeira vez, uma enorme angústia.A confirmação veio alguns dias depois, durante uma reunião profissional. Por sete vezes tentou dizer algo, balbuciou umas sílabas, mas logo outro colega cortava a sua voz indecisa, fazendo a frase voar em pedaços.A prova final, definitiva, veio durante o jantar com um pretendente, rapaz bonito, educado, sensual mas discreto. Foi terrível. Durante todo o jantar o rapaz falou mas não a fixou um só momento, o seu olhar atravessava-a como se em vez se carne, ossos, cartilagem ela fosse vidro e só vidro.Nessa ocasião ela teve um ataque de pânico incontrolável. Era evidente que, sem saber como nem porquê, por vezes se tornava invisível.Agora ela tinha vergonha de falar de se dirigir às pessoas, de aparecer. Só queria um buraco onde se meter.Falta dizer que a rapariga era bonita, atraente, tinha um corpo perfeitinho, bem proporcionado.Um dia de Verão estava em casa lendo o romance "o homem invisível", e teve uma ideia.Meteu-se no carro e dirigiu-se à praia mais concorrida, aquela onde se juntam os rapazes a jogar à bola, as famílias com crianças que choram, casais que leêm revistas.Despiu-se completamente, dançou nua no meio da multidão, uma louca dança africana e entrou na água certa e segura que ninguém a via.
Não sabes tudo de todos os maresNão sabes tudo de todos os maresMas agora, daquele mar sabes tudoAndaste por lá, por onde eu sempre andeiDeixaste as marcas dos teus pés na areiae essas marcas estão lá agora mesmomesmo depois da água passar,como está marcada na areia a sombra do teu corpo(imagina um louco, um fotógrafo de sombras...)Até o vento levante, que enlouquece os ilhéussoprou só para ti, só para tu o sentirese a criança que há mil anos corre nua na areiaveio dar pinotes à tua frente.Agora sabes que naquele mar há quatro algas:o cabelo da sereia, a barba do náufrago,os fios do fundo e as redes dos pescadores.Agora sim , sabes tudo
Os medos das meninas (2) Esta é a história de uma menina que não tinha medo do escuro, nem tinha medo da água, nem tinha medo dos cães. Tinha medo do chão. Exactamente aquilo que para as outras pessoas parece o mais firme, o mais seguro , o mais sólido, era o que lhe metia medo. Os primeiros sintomas apareceram quando, ainda bébé, se recusava a pisar a areia da praia. Torcia os pézinhos pequenos, levantava as pernitas e fazia caretas de desagrado. Os pais, jovens que cultivavam a educação liberal sorriam despreocupados. Também a relva, que deixava nos pés aquela sensação de humidade pegajosa era insuportável. Com o tempo qualquer tipo de chão se tornou desagradável: os passeios, as estradas, os trilhos, os tijolos, as subidas, as descidas, os solos pedregosos, os solos argilosos e mesmo a calçada portuguesa. Pura e simplesmente não gostava de pisar nenhum tipo de chãopois tinha o medo a ele ficar colada . Então quando tinha que caminhar , (porque as pessoas têm de caminhar) quase não assentava os pés no chão, saltitava, dava pequenos pulos, levitava. Claro que os médicos não se interessavam sobre esta patologia, distanciavam-se, sorriam, explicavam que a causa era o stress e receitavam a última gama de calmantes disponível no mercado. Um dia um amigo, homem mais velho e experiente disse: "Para mim o teu problema é simples, tens medo que se assentares bem os pés no solo te cresçam raízes". Foi como que uma revelação para ela! Desde pequena que aquele pesadelo a perseguia: quando parava em terminado local não podia mexer os pés que rapidamente de encontravam presos por raízes que cresciam a grande velocidade. Em seguida ela transfomava-se numa árvore, quase sempre um sobreiro, uma daquelas árvore que não se movem. Finalmente tinha percebido as razões do seu problema! Mas a cura? Perguntou ao amigo, como posso curar-me? "É fácil", respondeu ele: "O segredo está numa planta, não uma planta de ervanária mas simplesmente a planta do teu pé. Tem um ponto muito sensível debaixo do dedo grande ( aquele que tem nome noutras línguas , mas não na portuguesa). Uma ligeira pressão nesse ponto, durante aproximamente um minuto e estarás curada." Assim foi, ele pressionou e a menina agora já pode andar normalmente , assentando os pés no chão, sem medo de ficar tolhida pelas raízes.