sexta-feira, setembro 09, 2005



O sorriso

Sei que sorrio pouco
E que o meu sorriso é triste
Mas não é estudado nem oco
Esse sorriso que viste

Ela sorri pelos dois
Sorri só porque existe
Vejo-a sorrir e depois
Meu sorriso já não é triste

quinta-feira, setembro 08, 2005


O teu gato

O teu Gato é selvagem.
No silêncio da noite
Em caçadas noturnas
Salta de uma janela para outra
E desta para o teu colo
À caça das tuas carícias
Fugidio, esquivo, misterioso
Sempre em busca do invisível
Como tu,
Ermita, Noite Lua, Nove.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Taj Mahal


Como prova do meu amor
Pediste um Taj-Mahal
Sou obediente e serviçal
Trabalhei duro com ardor

Com lápiz, régua e compasso
Fiz desenho, contas, projecto
Vesti a pele de arquitecto
Até acertar o definitivo traço

Noites e noites sem dormir
Ao écran do computador
Obra é esforço, pena e dor
E muitas horas a reflectir

Bebi golos de café e bagaço
Para na noite ficar desperto
O sono andava por perto
Perturbava o meu claro traço

Trabalhei a três dimensões
Visualizei o efeito final
Queria fazer uma catedral
Que extasiasse multidões

A catedral é só para ti
Jardim secreto e privado
Não é templo projectado
São palavras que eu senti

Sabes , sou homem banal
Minha vaidade é servir
Só para te poder sentir
Estas quadras são o teu Taj-Mahal

terça-feira, setembro 06, 2005




O teu Cão

Esse cachorro rafeiro
Antevê, pressente, sente
A hora do teu re-encontro
Sente o bater dos teus passos
As ondas da tua voz.
Esse cachorro rafeiro
Capta todos os sinais
Conhece todos teus odores
Percebe os teus humores.
Esse cachorro rafeiro
É estritamente fiel
Só a ti ele obedece
Contigo ele permanece
Mesmo quando tu és ausência
Esse cachorro rafeiro
Abana acauda contente
Saliva abundantemente
Quando para ele tu falas
No bosque ele só tem um medo
Que tu o deixes sòzinho
No meio da sombra escura
Onde a tristeza perdura
Mas rebenta de contente
Quando te vê aparecer
Por tràs da árvore a sorrir
E descobre de novo o teu cheiro
Esse cachorro rafeiro

O retrato

Podia fazer teu retrato
Captar tua expressão
Teu sorriso, tua boca
Teu cabelo gracioso
Teu ar alegre, jocoso
Tuas formas, tua sombras,
Os teus ombros, teus sinais
Teus olhos ónix, fatais.
Misturava bem as tintas
Preparava a terebentina
O cicativo e os pincéis,
Maculava a tela virgem
Com pinceladas precisas, fiéis.
Teria assim no final
Uma imagem material
Para disfrutar com prazer
E pendurar no salão.
Mas a pele, a vibração
A graça e a energia
A ternura e o calor,
Mais essa tua alquimia,
Para apanhar tudo isso
Só se fora um grande pintor.
Sou amador sem talento
Falharia na tarefa.
Renuncio então à obra
Prefiro o modelo ao quadro
E quando o modelo é ausência
Cinjo-me ao virtual:
Chega-me a minha memória
Que é o retrato exacto
Fiel e original
Do meu amor que é real.